Teresina, sempre acolhedora!

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Foto: Portal oitomeia

Quando aqui aportei ainda criança, Teresina era uma cidade pequena e tímida, mas segura e acolhedora.

Era um tempo de boa vizinhança, de partilha , de solidariedade entre as famílias. Ao cair da tarde, as cadeiras iam se acumulando nas calçadas, e enquanto os adultos conversavam, as crianças se agrupavam em intermináveis brincadeiras.

Por vezes assim ficavam madrugada a dentro, jogando conversa fora, sem o risco de serem molestadas por algum vândalo ou assaltante.

Naquele tempo, conhecia-se pelo nome todos os pedintes que batiam às portas em busca de ajuda e não havia o receio de atendê-los pensando se tratar de algum malfeitor.

Até os “donos do alheio” eram de todos conhecidos,e eram bem poucos. Manelão, com seu avião, era o mais famoso de todos.

Durante o dia a criançada brincava no meio das ruas jogando peteca, triângulo ou bola de meia, pois eram raros os carros que circulavam na cidade.

Em quase todo canto tinha um campinho de futebol. As calçadas e até ruas, não raro, eram decoradas com desenhos de amarelinha. As meninas gostavam do bambolê e de pular corda.

Eram comuns também as rinhas de galo. Perto da minha casa tinha a do seu Ananias, o sapateiro, ali na Rua da Glória, hoje Desembargador Freitas.

Não havia violência. Podia-se andar pelas ruas da cidade até altas horas da noite, sem risco de assaltos. Brigas só a dos bêbedos na Zona da Paissandu, no Morro do Querosene ou na Marocas, os principais lupanares existentes à época. Assim mesmo era raro acontecer algo grave.

Não havia televisão. O rádio reinava absoluto. As maiores audiências eram do noticiário político, programas musicais e das radionovelas.

O jornalista e radialista Deusdeth Nunes comandava animado programa de auditório na Rádio Difusora. primeira emissora da cidade. O programa era apresentado na AABB, ali no cruzamento das ruas 13 de maio e Lizandro Nogueira, no coração da cidade.

Faziam sucesso programas como Almanaquinho no Ar, na voz do irreverente Francisco Figueiredo ou Chico Figueiredo, e Seu Gosto na Berlinda, apresentado por Roque Moreira. Quem não lembra desses bons tempos?

Nos finais de semana, o point da juventude era a praça Pedro II, onde rapazes e moças, à noite, caminhavam em círculos, em sentido contrário, flertando, paquerando e iniciando namoro, que muitas vezes terminava em casamento.

A festa acabava quando soava a sirene do Quartel da PM, onde hoje funciona o Centro Artesanal. Era a hora dos jovens retornarem às suas casas ou irem à tertúlia do Clube dos Diários, então frequentado pela elite local.

Os mais velhos e desafortunados ganhavam o caminho da Zona da Paissandu, onde os bordéis mais procurados eram O Sujeito, o Estrela e o Imperatriz, que ficavam abertos dia e noite.

Aos domingos pela manhã, a opção eram as “coroas” do Velho Monge, que ficavam apinhada de gente em torno de barracas improvisadas, muitas bebidas e música. Gente de todos os pontos da cidade comparecia. Os barqueiros faturavam um bom dinheiro levando e trazendo as pessoas.

Tínhamos ainda as atrações do cinema no Cine Rex, no Theatro 4 de Setembro e Cine Poeira, como era popularmente batizada a casa de exibição existente no bairro Piçarra. Mais tarde surgiria o Cine Royal, mais moderno e confortável.

Nos domingos a tarde, a opção era o futebol no Estádio Municipal Lindolfo Monteiro, que ficava lotado quando tinha um rivengo.

Naquele tempo, as praças da cidade eram frequentadas pelas famílias que iam passear com suas crianças e encontrar os amigos para um dedo de prosa. Pedro II, Rio Branco, Praça do Liceu, João Luiz Ferreira, Praça da Bandeira e Praça Saraiva, todas bem arborizadas e localizadas no centro da cidade.

A partir dos anos 70, Teresina começou a perder aquele ar provinciano ganhando aspecto de cidade grande. Passou por uma explosão demográfica causada pelo êxodo rural, foram se formando aglomerados urbanos em sua periferia, dando origem a vilas e favelas, surgiram também os primeiros conjuntos habitacionais.

No centro, ao lado do Hotel Piauí, era edificado o prédio do INSS. Foram construídos o majestoso estádio Albertão, o moderno prédio do Instituto de Educação Antonino Freire, das Centrais Elétricas do Piauí e da Agespisa. Grandes avenidas eram abertas como a Duque de Caxias, Avenida Maranhão e Marechal Castelo Branco.

 

A Zona Leste se desenvolvia rapidamente ganhando edificações modernas de alto padrão, para onde se mudaram as famílias mais abastadas. A Avenida Frei Serafim, com seus belos casarões, se transformou num centro comercial. Surgiam os primeiros condomínios de apartamentos.

O comércio, em todos os segmentos, acompanhou esse crescimento vertiginoso e grande lojas de departamento surgiam no quadrilátero comercial da cidade, fortalecendo a economia local.

Em 1972, chegava a TV Rádio Clube, a primeira televisão do estado, uma verdadeira revolução, que contribuiria para mudar os costumes e os hábitos dos teresinenses, mas o rádio continuaria ainda, por algum tempo, com grande prestígio contribuindo para projetar no cenário político nomes como Chico Figueiredo, Rodrigues Filho, Fernando Mendes, Al Lebre, Carlos Augusto, Deoclécio Dantas.

Veio o progresso, a cidade cresceu, mas continua tranquila e acolhedora. Muitos problemas surgiram, mas Teresina teve a sorte de contar com prefeitos que fizeram boas administrações, lembrando ai os nomes do Major Joel Ribeiro, José Raimundo Bona Medeiros, Wall Ferraz, Freitas Neto, Silvío Mendes, Élmano Férrer e Firmino Filho, os mais recentes, que governaram o município dos anos 70 para cá.

Hoje, com cara de metrópole, Teresina melhorou em todos os aspectos. Tem vida noturna com excelentes bares e restaurantes, boas opções de lazer, grandes redes de supermercados e lojas especializadas, três shopping centers, cinco canais de TV, vida cultural intensa, um bom sistema de saúde pública e privada, educação de qualidade, enfim, todos os equipamentos urbanos e serviços de que necessita a sua população.

Problemas existem, é inegável, mas não são exclusividade de Teresina. O Brasil sofre as consequências da crise mundial desde 1988, com danosos reflexos na economia nacional e nos estados e municípios, mas isso é passageiro. Depois da tempestade vem a bonança.

Neste 16 de Agosto, registro aqui a minha gratidão por esta cidade que aprendi a amar desde criança, onde constitui família e criei meus filhos. Nasci em Campo Maior, sou teresinense por adoção, mas amo Teresina.

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