Vinte anos sem Domingos da Guia, o Divino Mestre

Jogador é considerado por muitos o melhor zagueiro de todos os tempos

Dezoito de maio de 2000, há exatos 20 anos faleceu, aos 87 anos, aquele que foi considerado por muitos o melhor zagueiro de todos os tempos, Domingos Antônio da Guia, ou simplesmente Domingos da Guia, como era conhecido no mundo do futebol.

Nascido no bairro de Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, o menino de 17 anos, pobre, negro, viril e com 1,86m de altura, após sucesso nos campos de pelada, iniciou a carreira no Bangu Atlético Clube em 1929. Os três irmãos (Ladislau, Luiz e Mamede) também ingressaram no futebol, mas sem dúvida foi ele que obteve o maior sucesso na trajetória como jogador. Ele foi tão marcante na equipe banguense que é citado no hino composto por Lamartine Babo em 1949: “O Bangu tem também a sua história, a sua glória, enchendo seus fãs de alegria! De lá, pra cá, surgiu Domingos da Guia”.

“O Bangu sempre revelou grandes jogadores, especialmente nos anos de 1920, época na qual o clube era chamado de celeiro de craques. Assim, Domingos foi o maior expoente de sua geração, que conquistou maior projeção e glórias internacionais. Era um talento precoce, tanto que com apenas 19 anos já deixara o clube seduzido por uma proposta de 5 contos de réis a título de luvas e 500 mil réis mensais do Vasco. Algo inimaginável para um jogador de futebol naquela época, na qual o esporte ainda era amador”, diz o historiador e jornalista Carlos Molinari.

Após o início no Bangu, ele foi transferido para o Vasco, onde teve duas passagens. A primeira foi breve, em 1932. Logo depois saiu do país para defender o Nacional do Uruguai e foi campeão nacional em 1933. Além disso, no país vizinho recebeu a alcunha de El Divino Mestre. Logo depois voltou à equipe vascaína, mas desta vez com o título de campeão estadual de 1934.

Em 1935 tomou o avião rumo a Buenos Aires (Argentina). Na terra do tango defendeu com êxito a camisa do Boca Juniors, levantando a taça de campeão argentino. Este seria o terceiro troféu erguido por ele em três anos consecutivos, defendendo três clubes diferentes.

“Domingos, é bom lembrar, jogou num país como a Argentina, que nos anos 30 ainda via com reticência a presença de atletas negros. E foi campeão nacional pelo Boca Juniors em 1935, quebrando o estigma de que os jogadores brasileiros eram sempre os macaquitos”, afirma Molinari.

Após vestir a camisa da equipe argentina, retornou ao Rio de Janeiro, porém o destino foi o Flamengo. No rubro-negro carioca seguiu o mesmo sucesso que trilhou em outros times, alcançou o tricampeonato carioca em 1939, 1942 e 1943. A história de Domingos da Guia ficou tão vinculada ao clube que o samba-enredo da Escola Estácio de Sá em 1995, que homenageava o Flamengo, citou o nome do craque: “Seis jovens remadores / Fundam o grupo de regatas / Campeão o seu destino (ô) / É ganhar em terra e mar / Fazendo sol / Pode queimar, pode chover / Vou ver Fla-Flu / Fla-Vas vou ver / Diamante negro, Fio Maravilha / Domingos da Guia, Zizinho, Pavão / Gazela negra”.

Molinari descreve os atributos que levou o ex-zagueiro a ter sucesso por onde passou: “Um zagueiro clássico, que sabia sair jogando, desarmava com facilidade, não levava dribles e, além disso, driblava dentro de sua própria área os atacantes adversários”.

Ida para São Paulo

O primeiro clube no Brasil ao qual Divino Mestre prestou seus serviços fora do Rio de Janeiro foi o Corinthians. O clube paulista, em seu site oficial, conta que na época pagou 300 contos de réis, a maior quantia desembolsada por um jogador no futebol sul-americano. Por ironia do destino, seu filho, Ademir da Guia, se tornou anos depois o maior ídolo do arquirrival Palmeiras e herdou o apelido do pai. Pela equipe corintiana, venceu a Taça Cidade de São Paulo em 1947. O comentarista Mário Silva relembra um caso curioso no clube do Parque São Jorge: “Domingos da Guia foi uma lenda do futebol. Dele surgiu o termo domingadas, que significa não dar chutão. No Corinthians ele ganhava mais que toda a defesa, e os companheiros de zaga ficaram zangados. E o que eles faziam, vai Divino, vai Divino, e não iam na bola. Até que ele, esperto, reuniu todos e disse: ‘olha aqui, vou rachar o bicho com vocês e vamos jogar’. Só depois o Corinthians foi campeão”, o termo domingada ganharia um sentido pejorativo anos depois por causa de um lance do qual ele participou na Copa de 1938, que será abordado adiante.

E como diz o ditado, o bom filho à casa torna. Domingos encerrou a carreira no Bangu em 1949: “Sua família tem história dentro do clube, com outros três irmãos atuando com destaque na equipe. E o mais interessante é que ele fez questão de voltar para atuar no Bangu no fim de sua carreira, em 1948. Afinal, realmente, sentia uma dívida de gratidão com o Bangu. E, principalmente, queria mostrar que, apesar de ser um jogador de fama internacional, não esquecia suas origens. Aliás, Domingos e sua família sempre moraram em Bangu. Só, mais tarde, é que ele foi morar no Méier”, diz Molinari.

Copa do Mundo de 1938

Fazendo parte do seleto grupo de jogadores que tem o potencial de abrilhantar uma competição, Domingos da Guia disputou a Copa do Mundo de 1938. Caso não tivesse participado, caberia aquela frase famosa proferida quando um craque termina a carreira sem um título mundial por seu país, “o azar é da Copa”. Neste caso, a afirmativa também faz sentido, pois o ex-zagueiro não foi campeão na França, na ocasião levou a seleção brasileira à terceira colocação, porém levou o título individual como melhor da posição.

“Na Copa foi considerado um grande zagueiro, mesmo tendo participado do lance polêmico do pênalti no italiano Piola. Ele teria chutado o jogador adversário fora do lance e o juiz deu pênalti”, recorda Mário Silva ao comentar a semifinal contra a Itália, jogo que marcou o fim do sonho do Brasil de conquistar o primeiro Mundial de sua história.

Nascido em 19 de novembro de 1912, o Divino teria 117 anos de idade se estivesse vivo.


Agência Brasil

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