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‘A Odisseia’ trilha jornada entre épico deslumbrante e exagero hollywoodiano; g1 já viu

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Longa e árdua tende a ser a jornada de qualquer um louco o bastante para adaptar o poema clássico “A Odisseia” para os cinemas, num espelho irônico da jornada do protagonista. O cineasta (e sir) Christopher Nolan faz parecer fácil – apesar de alguns escorregões pelo caminho.
Ao estrear no Brasil nesta quinta-feira (16), o filme do diretor de “Oppenheimer” (2023) mistura fotografia deslumbrante e edição de som estremecedora para criar uma experiência cinematográfica épica rara.
Ao longo de quase três horas, “A Odisseia” do britânico transita entre um respeito que beira o dogmático pela obra de Homero e a humanização de uma história sobre homens e deuses – com uma sensibilidade que imprime um pouco de contemporaneidade ao poema escrito há quase 3 mil anos.
Humano como Odisseu, no entanto, Nolan não resiste a alguns de seus impulsos mais primitivos e faz as concessões necessárias para o orçamento de um projeto tão – com o perdão da palavra – homérico.
Agora no g1
Entre elas, a escolha por um elenco estrelado até demais, que impede uma conexão mais profunda com personagens que representam as diferentes facetas do homem por milênios.
Por mais carismático que seja, Matt Damon nunca foi daqueles atores famosos por se perderem nos papéis. Com duas indicações ao Oscar por atuação (e uma vitória pelo roteiro de “O gênio indomável”), o americano de 55 anos é ótimo, mas sempre é, invariavelmente, uma versão de Matt Damon.
O mesmo pode ser dito de alguns de seus companheiros de cena mais notáveis, como Tom Holland (o jovem por trás da máscara da trilogia mais recente do Homem-Aranha) e Anne Hathaway (“O diabo veste Prada”).
Não é que o trio não esteja bem. Longe disso. Mas a presença de rostos tão conhecidos e, de certa forma, hollywoodianos afasta o filme da realidade das acrópoles – por mais que o esforço de filmar em locações reais salte aos olhos ao longo de toda a produção.
A grande exceção é Robert Pattinson (“Batman”), que aproveita a completa falta de complexidade de seu vilão – um covarde ambicioso e invejoso – para produzir uma das interpretações mais deliciosas de sua carreira.
Do terror à beleza
Assim como no poema, o roteiro de Nolan narra a saga do retorno do protagonista (Damon) para casa ao longo de anos, e como ele usa a engenhosidade que deu aos gregos a vitória na guerra de Tróia para superar a fúria dos deuses e de outros seres mitológicos.
No caminho, o britânico escorrega na maior casca de banana da adaptação de clássicos literários com alguns diálogos que soam teatrais ou engessados demais, mas usa seu dom quase inigualável para criação de ambientações tensas e sufocantes para superar tais deslizes.
Seu maior trunfo talvez seja a transformação de momentos retratados à exaustão em outras obras em sequências dignas dos melhores filmes de terror. Os urros de dor do ciclope que prende o herói e seus soldados em uma caverna, por exemplo, devem ecoar por dias nas memórias de qualquer espectador.
Além da edição de som, contribuem para a realização do cineasta os trabalhos sempre espetaculares do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema e do compositor Ludwig Göransson – parceiros de longa data do diretor.
À exceção de alguns excessos bobos na direção de arte, com algumas armaduras exageradas que parecem ter saído de um episódio com o maior orçamento de “Power Rangers”, “A Odisseia” chega o mais perto possível de ser tecnicamente perfeito. Uma realização que merece ser apreciada na melhor projeção disponível.
Reflexo de Nolan
Se perde a mão no tamanho da celebridade de seus protagonistas, Nolan traduz a universalidade responsável pelo sucesso do poema original na diversidade do elenco, salpicado de atores de diferentes nacionalidades e etnias.
Com a consciência do tamanho da bobagem que é pedir autenticidade em uma obra de ficção com monstros fictícios como gigantes e espíritos do inferno, o cineasta brinca com possibilidades e expectativas.
No processo, ainda expõe o racismo de quem critica a escalação de uma atriz negra, como Zendaya, para a deusa Atena – uma escolha que não só faz sentido em sua versão, como a humaniza.
“A Odisseia” de Nolan é o reflexo de seu criador. Imperfeito e exagerado, mas em total controle de sua grandiosidade.

Arte/g1

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