
Juliana Linhares estreia o show ‘Até cansar o cansaço’ na cidade do Rio de Janeiro (RJ)
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Até cansar o cansaço
Artista: Juliana Linhares
Data e local: 16 de julho de 2026 no Teatro Claro Mais Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ “É a rainha da música do Brasil!”. Proferida após Juliana Linhares cantar “A palo seco” (Belchior, 1973) em número inebriante finalizado com ecos e reverbs que enfatizaram os versos “Eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês”, a sentença da espectadora anônima ecoou por toda a plateia do Teatro Claro Mais Rio na noite de ontem, quinta-feira, 16 de julho.
Era a estreia nacional do show “Até cansar o cansaço”, calcado no repertório do homônimo álbum lançado pela artista em 8 de maio. O teatro estava hiperlotado – com cadeiras extras e com alguns espectadores em pé nos corredores laterais – e o sentimento de encantamento pareceu ser somente um em toda a plateia.
Menos de três meses após se confirmar grande ao lançar aquele que pode ser considerado o melhor álbum brasileiro de 2026, com repertório que capta o estado de ansiedade e exaustão da humanidade no suor da lira incessante da hi-tech era digital, Juliana Linhares apresenta show da mesma estatura, alavancado pela forte presença cênica da artista.
Juliana Linhares em diferentes momentos e climas da estreia do show ‘Até cansar o cansaço’ no Teatro Claro Mais Rio
Rodrigo Goffredo / Montagem g1
Sim, “Até cansar o cansaço” é show que entroniza essa cantora, compositora e atriz potiguar como uma das maiores artistas do Brasil. O show se revelou ainda mais coeso do que o já incandescente espetáculo anterior da artista, “Nordeste ficção” (2021), irrompido há cinco anos na mesma cidade do Rio de Janeiro (RJ) em que “Até cansar o cansaço” chegou à cena.
Do primeiro ao último dos 18 números do roteiro, Juliana Linhares magnetizou o espectador, apresentando as onze músicas do álbum “Até cansar o cansaço”, revivendo três músicas do álbum anterior “Nordeste ficção” (2021) – a densa canção “Armadilha” (Caio Riscado e Juliana Linhares, 2021), “Bombinha” (Carlos Posada, 2021) e o xote “Balanceiro” (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021) – e surpreendendo ao dar voz a uma composição menos ouvida do cancioneiro de Alceu Valença, “Tesoura do desejo” (1991), música à qual a intérprete imprimiu intensa teatralidade no movimento de número que extrapolou o palco, tendo sido desenvolvido ao lado da plateia no corredor central do teatro.
“Tesoura do desejo” foi um dos pontos mais altos de um show de sotaque nordestino e energia eventualmente roqueira, orquestrado sob direção musical do multi-instrumentista Elísio Freitas, guitarrista da banda formada por Julia Rodrigues (bateria), Lucas Videla (percussão), Paloma Ronai (sanfona) e Nathanne Rodrigues (baixo).
Juliana Linhares usa um único figurino (de Jailon Fernandes) que muda ao longo do show ‘Até cansar o cansaço’
Rodrigo Goffredo / Montagem g1
Com um único figurino mutante criado por Jailon Fernandes, Juliana Linhares evoluiu magnética pelo palco, criando climas diversos em números que alternaram canções mais animadas com músicas mais espessas. Sem deixar de delinear a própria assinatura e sem jogar para a galera, Juliana Linhares vem se impondo como natural sucessora de Elba Ramalho – outra cantora e atriz de presença eletrizante em cena – na dinastia musical nordestina.
Parte do repertório de Juliana evolui na cadência de gêneros como xote, baião e frevo. E que repertório de alta qualidade! Se a compositora mostrou evolução no álbum “Até cansar o cansaço” em relação à já excelente produção autoral do primeiro álbum solo “Nordeste ficção”, a cantora também se revelou hábil ao pescar pérolas no baú nordestino como “O rabo do jumento” (Elino Julião, 1967), música de pegada popular que produziu imediata empatia com a plateia em número inicialmente feito a capella.
Sem falar que Juliana Linhares dá voz a maravilhas contemporâneas como “Emaranhada” (2024), obra-prima do cancioneiro do compositor Juliano Holanda que deslumbrou o público, e como “Conseguiram, parabéns”, música tristemente atual de Manduka (1952 – 2004) apresentada postumamente por Ilessi e Diogo Silli em 2020 em songbook do compositor fluminense.
Aliada ao canto cortante feito faca da artista, a elástica máscara facial de Juliana agigantou a intérprete em cena, como ficou evidenciado já no primeiro número, “Até cansar o cansaço” (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026), música cantada com travesseiro como adereço cênico e com olhares que potencializaram o sentido de cada verso.
Ora esfuziante como no baião “Vida virada” (Juliana Linhares, Josyara e Elisio Freitas, 2026) – cantado com a artista deitada no palco, de costas para a plateia, com as pernas para cima e a cabeça virada – e como no xote “Tanto buliço” (Juliana Linhares e Khrystal Saraiva, 2026), ora mais delicado como na balada “Tempos temporais” (Juliana Linhares e Juliano Holanda, 2026), ouvida em número introspectivo de voz, violão e sanfona, o canto de Juliana Linhares foi luz e sedução em cena, evidenciando requinte perceptível nos detalhes.
Entendedores entenderam que o caco “Bandido!” inserido ao fim do canto de “Mistério do óbvio” (Luiz Gabriel Lopes, 2026) foi alusão ao fato de Ney Matogrosso ter gravado esse forró contemporâneo com a artista no álbum “Até cansar o cansaço”.
Juliana Linhares canta músicas de Alceu Valença e da banda Pietá, ‘Tesoura do desejo’ e ‘Chama da criança’, no roteiro do show ‘Até cansar o cansaço’
Rodrigo Goffredo / Montagem g1
Texto da própria Juliana Linhares dito pela artista no meio do show sinalizou que o sonho, a fé e a vida vivida são as matérias-primas de “Até cansar o cansaço”. “Tenho sede de vida”, apontou a artista no texto.
“Nessa solidão desenfreada / Sigo me apoiando em quem tem fé / E acredito em forças encantadas / Chama da criança que ainda é”, sublinhou a cantora em “Chama da criança” (Juliana Linhares e Demarca, 2024), música do último álbum da banda que a revelou, Pietá, “Nasci do Brasil”. A música se afinou com o conceito do show em número introduzido por citações das músicas “Salve as folhas” (Gerônimo e Ildásio Tavares, 1989), “Vapor barato” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e “A mulher do fim do mundo” (Romulo Fróes e Alice Coutinho, 2015).
E foi assim, sedenta de vida e de sonho, que a artista cantou até o fim, soberana, e seguiu com “sentimentos transbordantes” até o arremate do show com “Futuro (Novos erros) + Oração pro sonho” (2026), parceria da artista com Carlos Posada também alocada no fecho do álbum que gerou esse espetáculo que, sim, entroniza Juliana Linhares como uma rainha da música do Brasil do século XXI.
Juliana Linhares canta 17 músicas ao longo dos 18 números do roteiro do show ‘Até cansar o cansaço’
Rodrigo Goffredo
♪ Eis o roteiro seguido por Juliana Linhares em 16 de julho de 2026 na estreia nacional do show “Até cansar o cansaço” no Teatro Claro Mais Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):
1. “Até cansar o cansaço” (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026)
2. “Depois do breu” (Juliana Linhares e Rafael Barbosa, 2026)
3. “Tanto buliço” (Juliana Linhares e Khrystal Saraiva, 2026)
4. “Armadilha” (Caio Riscado e Juliana Linhares, 2021)
5. “Tempos temporais” (Juliana Linhares e Juliano Holanda, 2026)
6. “Mistério do óbvio” (Luiz Gabriel Lopes, 2026)
7. “O rabo do jumento” (Elino Julião, 1967)
8. “Conseguiram, parabéns” (Manduka, 2020)
9. “Emaranhada” (Juliana Linhares, 2024)
10. “Vida virada” (Juliana Linhares, Josyara e Elisio Freitas, 2026)
♬ Texto de Juliana Linhares
11. “Chama da criança” (Juliana Linhares e Demarca, 2024)
12. “Bombinha” (Carlos Posada, 2021)
13. “A palo seco” (Belchior, 1973)
14. “Tesoura do desejo” (Alceu Valença, 1991)
15. “Balanceiro” (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021)
16. “Futuro (Novos erros) + Oração pro sonho” (Juliana Linhares e Carlos Posada, 2026_
Bis:
17. “Tareco e mariola” (Petrúcio Amorim, 1995)
18. “Depois do breu” (Juliana Linhares e Rafael Barbosa, 2026) – reprise
Juliana Linhares canta a música ‘Tempos temporais’ em número introspectivo que evidencia o toque da sanfona de Paloma Ronai
Rodrigo Goffredo



