
Como escolher um bom cuidador de idosos?
Normalmente, são as mulheres que assumem a tarefa de cuidadoras de familiares; por isso o livro Todo tempo é para viver, de Clovis Salomon, é tão bem-vindo. Engenheiro civil bem-sucedido, ele conta como foi a experiência de se tornar o principal cuidador da mãe, Olga. O aspecto mais interessante da obra foi ter levado para o ambiente doméstico conceitos de planejamento e organização, que compartilha com os leitores na seção final, intitulada “guia de referência para pessoas sob cuidados especiais em residências”. No entanto, o mais emocionante foi seu empenho para respeitar o ser humano que vivia uma fase de enorme fragilidade. Em suas palavras: “Meu maior compromisso foi garantir que ela continuasse sen¬do a Olga. Que fosse respeitada em sua história, em seus gostos e em sua forma de ser. Que pudesse se sentir viva dentro das suas possibilidades.”
Clovis Salomon ao lado da mãe: “Meu maior compromisso foi garantir que ela continuasse sen¬do a Olga. Que fosse respeitada em sua história, em seus gostos e em sua forma de ser”
Acervo familiar
O livro vai além do relato autobiográfico: transforma uma experiência familiar em um guia de acolhimento e empatia para os que vivem ou poderão viver algo semelhante. Em primeiro lugar, o autor resgata a trajetória de Olga Felisberto Salomon. Professora, advogada e gestora pública, ela sempre foi uma mulher independente e acostumada a liderar, até que uma queda doméstica mudou drasticamente a situação. “Para compreender a profundidade desta história, é preciso conhecer a pessoa que existia antes de tudo. Antes da cama na sala, antes da rotina de medicamentos, antes da fragilidade”, escreve.
Salomon avalia que a experiência revelou o nível de exigência que o trabalho demanda, mas faz uma ressalva: “Este não é um livro sobre a doença ou a despedida. É sobre a vida que insiste em pulsar, mesmo quando o corpo impõe limites. É para quem se sente sobrecarregado e, por vezes, culpado pela complexidade do ato de cuidar. É para quem busca um farol em meio à tempestade de emoções que envolve o cuidado familiar”.
Em janeiro de 2022, Olga caiu em casa. Depois de uma cirurgia, sofreu uma paralisação do trânsito intestinal e permaneceu no CTI por quase um mês. “Quando minha mãe foi para o quarto, já não parecia a mesma pessoa. Estava completamente ausente, não comia, recebia hidratação pelas veias. Ela conseguia nos reconhe¬cer, mas não interagia como antes”, lembra o filho. Após a alta, deu-se o início de uma nova rotina: Salomon fez as adaptações necessárias, cercou-se de especialistas, mas se desdobrou para estar presente:
“Passei a dedicar de duas a três horas por dia de forma presencial. Saía do trabalho por volta das seis, ia direto para a casa dela e ficava até as nove da noite. E não era só isso. Todos os dias havia chamadas de vídeo, mensagens, decisões e ajustes a serem feitos. Confesso que deveria ter feito terapia no período em que cuidava da minha mãe, mas estava tão focado que entendia que qualquer minuto que usasse para qualquer outra coisa faria falta. Tenho consciência de que, em muitos momentos, sacrifiquei o tempo com a minha família. Essa consciência foi revisita¬da quando, para escrever o livro, con¬versei com a minha esposa e minhas filhas.”
Houve um momento em que ele teve que cuidar de si mesmo: submeteu-se a uma cirurgia para tratar um câncer e ficou 21 dias internado. Na sequência, iniciou as sessões de quimioterapia. Durante esse período, sua irmã, Marina, assumiu as responsabilidades. “Ali, reaprendi a aceitar ajuda e a entender que o cuidado também acontece quando a gente solta um pouco a rédea”, reconhece.
Foram três meses afastado, e, na sua volta, o estado de Olga havia se deteriorado bastante. O “fazer tudo” – que era a norma desde 2022 – já não se aplicava. “Conversamos sobre a intubação e decidimos, juntos, que não faríamos. Foi uma escolha dolorosa, mas necessária. Registramos no prontuário, alinhamos com o médico, e seguimos ao lado dela, sem intervenções que trariam mais dor do que vida”, conta Salomon. Olga morreu em 2024, aos 93 anos.
Capa do livro Todo tempo é para viver: experiência do filho cuidador
Divulgação
Fórum quer dar voz aos cuidadores de pessoas idosas
A Comissão de Assistência Social da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, realizará, entre agosto e novembro, o 1º Fórum Itinerante dos Cuidadores de Pessoas Idosas: Desafios, Ação e Transformação. A iniciativa, inédita, percorrerá as cinco regiões da capital paulista para ouvir, acolher e construir propostas junto aos próprios cuidadores.
O primeiro encontro acontece no dia 19, das 9h às 16h30, no Espaço Cultural do Bunkyo, no bairro da Liberdade. Ao longo dos meses seguintes, o projeto seguirá para a Biblioteca Álvares de Azevedo, na Vila Maria, e para o Centro Dia para Idosos (CDI – Camp Pinheiros), em Pinheiros, respectivamente nos dias 9 e 23 de setembro. Haverá ainda encontros nas zonas leste e sul em outubro, em locais a serem definidos. O ciclo será encerrado no dia 18 de novembro, quando serão apresentados os resultados coletados durante a jornada. Todos os encontros têm entrada gratuita, mas é preciso fazer a inscrição. Para esse primeiro, é necessário entrar neste link.
A experiência de um filho cuidador para garantir a dignidade da mãe até o fim



