
Imigrantes em Ceuta, na Espanha, lotam praia com barracas improvisadas
Mulheres que chegaram ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, após a entrada em massa de imigrantes, dizem estar enfrentando ameaças e assédio sexual enquanto dormem ao ar livre à espera de atendimento das autoridades.
Mais de uma dúzia delas montou um acampamento improvisado em uma área arborizada perto da cerca que protege um centro de acolhimento administrado pelo governo espanhol. O local fica próximo à praia urbana de El Trampolin.
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O centro abriga cerca de 700 pessoas, aproximadamente 200 acima da capacidade, segundo autoridades locais. Do lado de fora, mulheres dividem o espaço com centenas de outros imigrantes do Marrocos, da África Subsaariana e do Sul da Ásia.
A Reuters conversou com três mulheres no local. Elas afirmaram que alguns homens que vivem nas proximidades as assediam e ameaçam.
Segundo as autoridades, entre 5.000 e 8.000 imigrantes continuam em Ceuta mais de duas semanas após uma onda migratória em que cerca de 72 mil pessoas cruzaram a fronteira a partir do Marrocos. A maioria era formada por homens jovens, muitos dos quais já retornaram ao país.
Entre os que permaneceram estão mulheres e crianças. Até a última terça-feira (17), 2.168 crianças haviam sido registradas. As autoridades também haviam recebido cerca de 500 pedidos de asilo de adultos até a semana passada.
Mulher observa fronteira entre Marrocos e Espanha, em Ceuta
Pedro Nunes / Reuters
Relatos de assédio
Wafae Atid, de 28 anos, é natural da cidade marroquina de Taza. Ela contou à Reuters que montou, junto com outras mulheres, um acampamento com caixas de papelão, colchões infláveis e cobertores.
O grupo tentou ficar o mais perto possível de uma viatura policial estacionada na entrada do centro de acolhimento, por segurança.
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“A situação é muito ruim. Muitos homens tentam atacar as meninas todas as noites, às vezes até quando você vai ao banheiro. Eles seguem você”, disse Atid.
Segundo ela, os homens envolvidos seriam de diferentes nacionalidades, incluindo africanos e árabes.
O Sindicato Unificado de Polícia (SUP), maior sindicato policial da Espanha, informou que 15 agressões sexuais de diferentes níveis de gravidade foram registradas em Ceuta desde 30 de julho. A maioria das vítimas seria menor de idade.
O sindicato afirmou à Reuters que a maior parte dos casos teria ocorrido na praia e em áreas arborizadas ocupadas pelos imigrantes. Segundo a entidade, algumas denúncias podem ser difíceis de investigar porque as vítimas forneceram informações consideradas “genéricas”.
As mulheres que denunciaram os casos receberam atendimento policial, judicial e médico. Elas foram transferidas para um novo centro destinado a vítimas de violência sexual, segundo o SUP.
O sindicato pediu mais policiais na unidade responsável por mulheres e famílias e o aumento das patrulhas nos acampamentos improvisados.
O Ministério do Interior da Espanha e a polícia não confirmaram o número de casos nem forneceram mais detalhes.
Casos de violência sexual
As autoridades judiciais de Ceuta confirmaram, na semana passada, três processos por agressão sexual contra mulheres imigrantes. Os supostos autores seriam imigrantes marroquinos que chegaram à cidade durante a onda migratória.
Dois casos envolvem menores. Em um deles, uma menina teria sofrido violência sexual com penetração e sido obrigada a vender drogas. No outro, a vítima teria sofrido toques de natureza sexual. Os dois suspeitos foram presos preventivamente.
No terceiro caso, uma mulher adulta denunciou toques de natureza sexual. A Justiça determinou a deportação do suspeito.
Outro homem também teve a deportação determinada após invadir uma residência e subir na cama de uma mulher local usando apenas roupa íntima. Ele foi acusado de invasão de domicílio.
Dados do Ministério do Interior espanhol referentes a 2024, último ano completo com estatísticas disponíveis, mostram que 42 casos de agressão sexual e cinco estupros foram registrados em Ceuta, território com cerca de 84 mil habitantes.
Os Ministérios do Interior, da Migração e da Igualdade da Espanha não responderam às perguntas da Reuters sobre os relatos de violência sexual e ameaças.
A ministra da Saúde, Mónica García, afirmou que serviços médicos atenderam cinco mulheres vítimas de violência sexual. Segundo ela, a prioridade mais urgente era garantir abrigo aos imigrantes.
“A melhor maneira de proteger mulheres e crianças é garantir que elas estejam em locais seguros”, disse.


