
Alta temporada testa limites ambientais da Baixada Santista diante das mudanças climáticas
Receber mais turistas na alta temporada movimenta hotéis, restaurantes e o comércio, mas também coloca à prova estruturas dimensionadas para uma população menor. No litoral de São Paulo, esse aumento coincide com um período marcado por ondas de calor, chuvas intensas e ressacas.
No início de 2026, cidades da região enfrentaram problemas no abastecimento de água após uma combinação de estiagem, aumento de moradores durante o Réveillon e temporais que afetaram as estruturas de captação e tratamento.
Meses depois, em julho e agosto, rajadas superiores a 100 km/h interromperam temporariamente as operações no Porto de Santos e as travessias de balsas, provocando ocorrências em diferentes municípios.
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Para o pesquisador e professor Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar da Unifesp, a relação precisa ser observada nos dois sentidos. O turismo amplia a pressão sobre os recursos e a infraestrutura, enquanto as mudanças climáticas podem modificar as próprias condições que ajudaram a consolidar a região como destino turístico.
“O nosso turismo, da forma como se consolidou, baseou-se no clima das últimas décadas. No entanto, o clima mudou “, afirmou Ronaldo ao g1.
Centro de Santos teve estruturas destruídas após a ventania.
Reprodução e Matheus Croce/TV Tribuna
Alta temporada e a pressão estrutural
A importância econômica desse movimento reflete-se nos números do setor. Segundo o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (Sinhores), a movimentação cresce, em média, cerca de 40% ao longo do ano.
Em feriados prolongados e na alta temporada, o aumento pode variar entre 70% e 80%, com a ocupação hoteleira próxima de 100% nas festas de dezembro.
Ao g1, o secretário de Fomento Turístico do Sinhores, Kauê Lima, destacou que o fluxo beneficia a rede de serviços e contribui significativamente para o aquecimento da economia local.
Veículos seguem em direção à Baixada Santista.
Luigi Bongiovanni/AT
O impacto, contudo, acaba se refletindo no consumo de água. A Sabesp informou a reportagem que a demanda cresce, em média, 30% no verão, principalmente entre o Natal e o Ano Novo. Na última temporada, o litoral paulista recebeu cerca de 30% mais pessoas nas festas em comparação com a média da década anterior.
Os maiores acréscimos médios de consumo registrados nos últimos anos foram:
Itanhaém – 51%
Mongaguá – 48%
Peruíbe – 46%
Bertioga – 35%
Praia Grande – 31%
Guarujá – 31%
Moradores reclamam da falta d’água na Baixada Santista
Para lidar com os picos, a concessionária reforçou em 40% as equipes de plantão no último período de festas e utilizou dezenas de caminhões-pipa em áreas mais críticas.
Entre 29 de dezembro de 2025 e 3 de janeiro de 2026, foram entregues mais de 12 milhões de litros de água por esse sistema. A companhia também afirma ter investido R$ 2,4 bilhões na região desde julho de 2024 e prevê outros R$ 8,1 bilhões entre 2026 e 2029.
A empresa de saneamento explicou que temperaturas elevadas, estiagens e chuvas irregulares também interferem na operação. Em 2025, os baixos índices pluviométricos reduziram a vazão dos rios, enquanto temporais levaram lama, terra e detritos aos pontos de captação, comprometendo temporariamente o tratamento.
O saneamento básico é outro gargalo. Mais pessoas significam maior produção de esgoto e, quando a infraestrutura não acompanha os picos de demanda, aumentam os riscos de impactos sobre rios, canais e praias.
Imagens da captação de água no rio Mambú, da estação de tratamento de água (ETA) Mambú/Branco
Divulgação/Sabesp
Eventos extremos colocam o turismo à prova
Uma ocorrência que já representa um desafio para os moradores ganha outra dimensão quando a cidade recebe uma população muito maior que a habitual.
“Lidar com isso em uma cidade de 600 mil habitantes é uma coisa; com 2 milhões de pessoas, é outra”, exemplificou Ronaldo.
As ondas de calor afetam diretamente a experiência dos turistas, aumentando o desgaste físico e o desconforto. A combinação entre temperaturas extremas e aglomerações também pode ampliar riscos sanitários. “Teremos cada vez mais surtos de viroses e infecções bacterianas”, disse o pesquisador.
Chuvas intensas, por sua vez, comprometem deslocamentos, provocam alagamentos e ampliam a exposição a situações de risco. Para quem não conhece a geografia local, identificar áreas vulneráveis e saber como agir diante de uma emergência torna-se ainda mais difícil.
Temporal deixa diversas áreas alagadas em cidades da Baixada Santista
O setor turístico, por outro lado, não vê hoje um cenário de perda da atratividade regional. Kauê Lima acrescentou que a proximidade com a capital, a diversidade de atrativos e a estrutura de serviços sustentam a atividade ao longo do ano.
“Na avaliação do setor, embora as condições climáticas exijam atenção e planejamento, a tendência é que eventuais impactos sejam temporários, sem comprometer a atratividade da região no médio e longo prazo” avaliou o representante do Sinhores.
A preocupação do pesquisador da Unifesp, contudo, aponta para outro horizonte. Erosão, ressacas e alterações ambientais podem modificar as praias, criando impactos diretos sobre negócios que dependem desses espaços.
“Se uma orla sofre forte erosão devido às ressacas e à elevação do nível do mar, ela pode receber menos visitantes. O que acontece com a economia local, os barraqueiros, os ambulantes, as pousadas e os restaurantes que dependem diretamente daquela faixa de areia? “, questionou.
Erosão nas praias de São Vicente preocupam autoridades
Carlos Abelha/TV Tribuna
Ambientes costeiros sob pressão
Segundo o biólogo marinho Jorge Luis dos Santos, o alerta não se restringe à faixa de areia. O pesquisador explicou ao g1 que o aumento sazonal do público agrava problemas que já ocorrem no restante do ano, principalmente relacionados ao lixo e ao esgoto.
Durante a alta temporada, a quantidade de resíduos pode superar a capacidade de recolhimento das prefeituras. O material acaba acumulado em espaços públicos e chega aos rios e ao oceano, afetando a vida marinha. O despejo irregular de esgoto também piora com o contingente extra.
“A poluição por esgoto somada ao lixo é, sem dúvida, o maior problema ambiental relacionado ao turismo em massa “, cravou o especialista.
Rio dos Bugres, na região estuarina entre Santos (SP) e São Vicente (SP)
William Rodriguez Schepis
Praias arenosas, costões rochosos, restingas e manguezais estão entre os ambientes mais sensíveis. Além da poluição, esses locais sofrem com a circulação de embarcações turísticas, especialmente nas áreas próximas aos manguezais. A conservação desses espaços também ajuda a proteger o litoral, já que manguezais e dunas funcionam como barreiras naturais contra o avanço das águas oceânicas.
🚤 O movimento das embarcações gera ondas que desgastam as margens, derrubam árvores de mangue e podem destruir ninhos marinhos. Âncoras, motores e vazamentos de óleo também danificam os costões e afetam a fauna local
A balneabilidade da água do mar também é impactada pela combinação de fatores. A Cetesb explicou que o principal indicador medido é a presença de enterococos (bactérias que apontam contaminação fecal). A proliferação desses microrganismos pode estar ligada a extravasamentos, ligações irregulares e ao transporte de poluentes pelas chuvas.
Na Baixada Santista, áreas próximas a rios, estuários e manguezais são mais sensíveis porque recebem diretamente a influência das bacias de drenagem. Em períodos de chuva intensa, a drenagem urbana e os cursos d’água podem carregar poluentes para o mar, pressionando ainda mais a qualidade das praias.
Santos sofre pressões relacionadas à urbanização, às atividades portuárias e industriais e à perda de áreas de manguezal
Marcelo Justo/Acervo A Tribuna
Ações e planejamento
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) informou ao g1 que as projeções para São Paulo indicam elevação da temperatura, maior duração de ondas de calor e possível intensificação de chuvas extremas, com potenciais reflexos em inundações, deslizamentos e erosão.
Na Baixada Santista, os estudos apontam a região entre as áreas que podem ser mais afetadas por eventos climáticos extremos e processos erosivos. A Semil ressalta que, embora os estudos não façam projeções específicas para o turismo nem avaliem a elevação do nível do mar, os efeitos previstos ameaçam a infraestrutura, os ecossistemas e as atividades econômicas locais.
Estrutura de loja desaba sobre grupo de pessoas durante ventania em Santos
Uma das respostas do poder público está no controle da visitação. Segundo o órgão ambiental, as Unidades de Conservação estaduais da Baixada Santista recebem de 300 mil a 500 mil pessoas por ano, com até 70% desse público concentrado entre dezembro e março. Para evitar que o fluxo ultrapasse a capacidade de suporte da natureza, a Fundação Florestal desenvolve estudos incorporados aos Planos de Manejo.
Esses documentos estabelecem limites de acesso a atrativos ecológicos (trilhas, cachoeiras e mirantes) e consideram impactos que vão desde a compactação do solo e a poluição de rios até o afugentamento da fauna. Os Planos de Manejo também definem zonas de uso, separando as faixas de ecoturismo regulado daquelas de proteção integral.
O planejamento abrange, ainda, situações de risco. O órgão estadual mantém sinalização em áreas vulneráveis e protocolos para a retirada de visitantes diante de mudanças bruscas no tempo. Além disso, as trilhas recebem estruturas de baixo impacto (como deques e passarelas) que reduzem o pisoteio direto, preservam a vegetação e contêm a degradação do terreno.
Visitante desce a tirolesa Voo da Serra, no parque Caminhos do Mar. Atração corta a Mata Atlântica com vista para a Baixada Santista
Fábio Tito/g1
Por meio do programa Monitora Bio SP, a fauna e a flora são acompanhadas com “armadilhas fotográficas” e amostragens de campo. Simultaneamente, moradores de comunidades tradicionais são capacitados como guias para atuar no entorno das áreas protegidas e auxiliar na organização turística.
A Semil destaca que as ações de planejamento territorial, conservação, monitoramento ambiental e gestão das Unidades de Conservação são desenvolvidas de forma permanente, com o objetivo de conciliar a proteção dos recursos naturais com o uso público ordenado dos espaços protegidos.
Temporada testa limite ambiental em SP diante das mudanças climáticas; entenda



