
A escolha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela senadora Teresa Leitão (PT-PE) para a liderança do governo no Senado não deve alterar o cenário de articulação do executivo no Congresso em função do rompimento com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Teresa Leitão foi escolhida por Lula após o antigo líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), se afastar do cargo após ser alvo da operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga ligações do senador com Augusto Lima, antigo sócio do Banco Master.
Ao anunciar o nome da senadora, Lula colocou como prioridades na Casa o avanço das propostas de emenda à Constituição (PECs) do fim da escala 6×1 e da Segurança, ambas paradas na gaveta de Alcolumbre.
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Em sua primeira manifestação como líder, Teresa destacou que irá trabalhar para fortalecer a articulação com Alcolumbre.
“Atuarei para fortalecer a articulação entre o Palácio do Planalto, a base aliada e os parlamentares, especialmente os líderes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, contribuindo para a construção de consensos e para o avanço das pautas de interesse do governo e do povo brasileiro, como o fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública e outras medidas voltadas ao desenvolvimento do país, à justiça social e à melhoria da qualidade de vida da população”, disse ela em nota.
A nova líder do governo no Senado deve se reunir com o presidente Lula nesta segunda-feira (29) para alinhar as estratégias.
Na escolha de Teresa Leitão, pesou o fato de a senadora não estar envolvida em uma campanha por reeleição e ser um quadro bem quisto entre senadores, inclusive de oposição. Ela faz parte da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), considerada mais moderada dentro do PT.
Por outro lado, Teresa não tem o peso político de Jaques Wagner e, apesar da boa relação, não faz parte do “núcleo duro” de aliados de Alcolumbre.
A indicação foi vista por senadores como um recado de que Lula buscou manter a liderança do governo com um quadro do PT e que não pretende entrar em grandes disputas com o Senado até as eleições.
A PEC que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1 é o principal tema para o governo no Senado, mas não tem a mesma urgência para Alcolumbre.
Alcolumbre e Lula sentaram lado a lado durante posse de Nunes Marques como presidente do TSE e evitaram trocara olhares
Walter Rocha / TV Globo
Interlocutores do presidente do Senado afirmam que a ideia é colocar o tema em votação antes do recesso e garantem que, no mais tardar, a PEC será deliberada no Senado antes das eleições de outubro.
Apesar da sinalização, a PEC ainda está na gaveta de Alcolumbre e não foi despachada para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde tramitará.
O presidente do Senado chegou a desmarcar uma reunião com Otto Alencar (PSD-BA), presidente da CCJ, para debater a tramitação da proposta e definir um relator.
A situação é a mesma da PEC da Segurança Pública, aprovada na Câmara em março, mas ainda não saiu da mesa de Alcolumbre para a CCJ.
Lideranças fragilizadas
As lideranças do governo no Congresso e no Senado estão fragilizadas desde o rompimento de Lula com Alcolumbre após a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Interlocutores dos dois lados avaliam que a situação só será resolvida com um encontro entre Lula e Alcolumbre, o que não está no horizonte no momento.
Na liderança do governo no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) fica justamente no meio do caminho da rusga entre Lula e Alcolumbre.
Aliado de primeira hora do presidente do Senado, Randolfe é candidato a reeleição ao Senado e, segundo interlocutores, depende mais de Alcolumbre do que de Lula para se manter na Casa. Por isso, o parlamentar tem se dedicado mais à política no estado do que no Congresso.
Na última quinta-feira (18), Randolfe estava ao lado de Alcolumbre quando o presidente do Senado anunciou que estava cancelando a sessão conjunta por falta de acordo sobre os vetos a serem deliberados, responsabilidade direta do líder do governo no Congresso.
No caso da liderança no Senado, Davi Alcolumbre chegou a romper relações com Jaques Wagner após Lula confirmar a indicação de Messias. Os dois voltaram a se falar, mas a articulação do governo passou a ser feita diretamente por membros do Executivo, sem a participação do líder.
Foram os casos das reuniões de Alcolumbre com o ministro da Defesa, José Múcio, para negociar o avanço de um projeto de lei que libera até R$ 2,5 bilhões para investimentos em defesa e com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que tentou barrar, sem sucesso, o avanço de matérias com impacto de mais de R$ 150 bilhões, as chamadas pautas-bomba.
Apesar de Teresa Leitão ter uma interlocução mais leve com Alcolumbre, a expectativa é que o cenário não mude e Alcolumbre siga comandando o Senado à revelia do governo até as eleições.



