
“100 dias”, filme que encerrou a Première Brasil do Festival do Rio, aborda a travessia histórica realizada por Amyr Klink no Atlântico Sul de uma forma que até funciona, mas que deixa a desejar no quesito emoção.
A obra, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29), tem como pontos positivos uma boa produção, amparada por uma parte técnica satisfatória, uma direção adequada e um ótimo elenco. Só que, mesmo com tantos bons elementos, fica aquela sensação de que falta alguma coisa.
Adaptada do livro “Cem Dias Entre Céu e Mar”, escrito pelo próprio Amyr Klink, a trama ambientada em 1984 mostra o navegador (vivido por Filipe Bragança) decidido a fazer algo que nunca tinha sido feito antes: atravessar o Oceano Atlântico Sul a remo, num barco que ele mesmo projetou.
Assista ao trailer do filme “100 dias”
Ele parte de Lüderitz, na Namíbia, com destino a Camaçari, na Bahia. Sozinho, precisa lidar com diversas adversidades em alto mar, como a solidão, o medo e suas limitações durante 100 dias. Enquanto encara o desafio, Amyr conta apenas com o auxílio da mãe, Asa (Philippine Leroy-Beaulieu), e do irmão, Tymur (João Vitor Silva), que buscam orientá-lo em terra firme para que tudo dê certo em sua travessia.
Odisseia brasileira
O que torna “100 dias” interessante é mesmo a sua história. A travessia oferece um material dramático naturalmente rico, já que ela representa uma grande superação humana. O filme acerta em mostrar os esforços e privações que o protagonista tem que passar para alcançar o seu objetivo e faz do espectador seu cúmplice nessa missão do navegador.
A direção de Carlos Saldanha, mais conhecido por comandar animações como “A era do gelo 2 e 3” e “Rio”, é eficaz para dar o clima angustiante e claustrofóbico que Klink passa em alto mar.
Em especial nos momentos em que fica dentro de sua pequena embarcação. Além disso, a sensação de isolamento que o protagonista sente enquanto cruza o Atlântico Sul a remo também é bem traduzida na tela.
Filipe Bragança vive o navegador Amyr Klynk numa cena de ‘100 dias’
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Em seu primeiro filme totalmente live-action (antes ele só tinha feito “Harold e o Lápis Mágico”, de 2024, que misturava atores reais com animação), Saldanha mostra um cuidado estético para criar belas cenas. Como, por exemplo, quando Klink rema com golfinhos que passam ao lado de seu barco, ou na sequência em que ele descansa na embarcação e olha para as estrelas.
Só que o diretor, mesmo com esses acertos, não consegue imprimir um pulso mais firme para criar uma emoção maior. Em diversos momentos, os acontecimentos são apresentados de forma correta, mas sem gerar maior envolvimento emocional.
Isso afeta principalmente a parte central da obra, que perde ritmo antes de recuperar um pouco da força nos momentos finais.
Além disso, o roteiro escrito por Elena Soarez e Thais Tavares alterna momentos interessantes com soluções mais convencionais. As passagens que mostram as estratégias de Amyr para lidar com a solidão funcionam melhor do que os conflitos familiares.
Principalmente ao retratar a relação do protagonista com o pai, Jamil Klink, vivido por Felipe Camargo, e alguns flashbacks de sua infância, construídos de maneira mais previsível.
Amyr Klink (Filipe Bragança) pensa em sua viagem numa cena de ‘100 dias’
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Outro problema está na parte técnica, já que alguns efeitos visuais contribuem para recriar a travessia, mas outros revelam limitações que comprometem a imersão. Em algumas cenas, é possível notar que o navegador e seu barco estão num estúdio por serem muito artificiais.
Numa outra sequência, em que o protagonista é ameaçado por um tubarão, a tensão soa falsa porque a computação gráfica não consegue tornar os movimentos do peixe naturais, fazendo com que fique parecido com um robô de parque aquático.
O jovem e o mar
Mesmo com altos e baixos, “100 dias” se beneficia com a escolha certeira para a escolha de seu elenco. Principalmente Filipe Bragança, que tinha uma missão difícil para cumprir como Amyr Klink.
O ator passa boa parte do filme praticamente sozinho em cena. Por causa disso, assume a responsabilidade de sustentar o interesse do público e consegue transmitir de forma convincente o desgaste físico e emocional do personagem. Se fosse outro ator menos capacitado, o filme certamente afundaria.
Amyr Klink (Filipe Bragança) ganha o apoio da mãe (Philippine Leroy-Beaulieu)numa cena de ‘100 dias’
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Vale destacar também o trabalho do ator João Vitor Silva, que convence em sua cumplicidade com Bragança, como se ambos fossem irmãos de verdade. A atriz Philippine Leroy-Beaulieu, embora apareça pouco, se sai bem como a mãe preocupada de Amyr Klink. Já Felipe Camargo se resume a resmungar e mostrar certa arrogância como pai “vilão” do protagonista, por ser pouco desenvolvido pelo roteiro.
No conjunto, “100 Dias” entrega uma narrativa competente sobre uma das maiores realizações de Amyr Klink. Ainda assim, o filme encontra dificuldades para atingir a mesma dimensão dramática de seu tema. Isso resulta em uma experiência correta e bem realizada, mas menos impactante do que a história retratada sugere.
Cartela resenha crítica g1
Arte/g1
‘100 dias’ é retrato correto de aventura histórica de Amyr Klink, mas pouco emocionante; g1 já viu



